Dois anos após surto de Zika vírus, mãe relata rotina de filha com microcefalia

Thais foi picada pelo mosquito durante a gravidez; família mudou de cidade e a criança, de dois anos e meio, já vai à escola

Por Band.com.br 12/11/2017 - 10:51 hs

Dois anos após surto de Zika vírus, mãe relata rotina de filha com microcefalia
Letícia (esquerda), de 5 meses, é a nova integrante da família (Foto: Arquivo Pessoal)

Há pouco mais de dois anos, quando houve o surto do Zika vírus, Thais Veloso estava grávida e foi picada pelo mosquito Aedes Aegypti. A filha, Emanuelle Veloso Battistot, foi diagnosticada com microcefalia aos sete meses de vida. Na época, o tema ainda era novo para muitas famílias e também para os médicos, que não sabiam ao certo a relação entre a microcefalia e o vírus. A confirmação só veio no primeiro semestre do ano passado.

No início de 2016, a jovem contou, ao Portal da Band, as primeiras experiências com a filha, até então com dez meses.

Passado esse tempo, muita coisa mudou na rotina da família. Um das principais foi a mudança de cidade. Há um ano, eles saíram de Campo Grande no Mato Grosso do Sul, para Iguatemi, município que fica a cerca de 500 km de distância da capital.

Outro fator importante foi a chegada da quarta integrante na família: a Letícia, de cinco meses – fato que também contribui para o desenvolvimento da Manu.

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Letícia (esquerda) e Manu posam juntas para a foto - Thais Veloso/Arquivo Pessoal

A escolha da cidade não foi à toa: Thais nasceu em Iguatemi, onde sua família e amigos ainda vivem. Ou seja, o casal conta, agora, com a extra dos conhecidos para cumprir as tarefas que começam às 8h30 e vão até às 21h30, horário que as meninas vão dormir.

Com o clima acolhedor, típico de cidade com poucos habitantes (são cerca de 16 mil), a jovem explica que a filha está muita mais feliz, pois tem mais amigos e está na escola, onde recebe atenção especial de uma professora.

“Em Campo Grande, era tudo muito longe. Tinha que pegar o carro para levá-la aos tratamentos. Aqui, a Unifig (União dos Deficientes Físicos de Iguatemi) vem buscar a gente em casa. A associação fornece um carro que buscar a gente em casa. Algo que na capital não teríamos tão fácil”, diz. A associação citada acima fornece um carro que busca e leva a menina para as sessões de fisioterapia e hidroginástica.

Entretanto, Thais precisa enfrentar os 500 km até a capital para levar a filha às consultas de médicos, principalmente de neurologista. Na maioria dos casos, a viagem é feita com a carona da família.

Mesmo assim, a jovem acredita que a mudança de cidade foi importante para o desenvolvimento de Manu. “Tenho sobrinhas de sete e dez anos e elas estão sempre em casa. A Manu aprendeu a comer observando as duas. Ela pede para comer quando percebe que as primas estão comendo”,  relata, animada.

E o estímulo não vem só das primas, mas também da nova integrante da família. A presença da caçula estimula a movimentação da irmã. “A Letícia pega os brinquedos e a Manu quer fazer igual”, diz Thais.

Educação que faz diferença

Além do benefício de morar em uma cidade com menos habitantes e contar com um clima mais acolhedor, a família também conseguiu uma vaga para a garota em uma das creches que disponibiliza uma professora especial para ela.

Privilégio que, segundo Thais, não é fácil de conseguir e ela acredita que seria ainda mais complicado em Campo Grande.

“Os funcionários da creche, inclusive a professora dela, já me conheciam porque cresci aqui. Então foi mais fácil. Tem muita mãe que não consegue”, lamenta.

A professora ajuda na locomoção da cadeira especial para Manu e também na alimentação, amassando a comida para a criança. Para Thais, isso faz muita diferença na vida da filha. “Ela é ótima, dá muita atenção. Minha filha ama ir para a creche”.

‘Microcefalia não é o fim’

Thais administra um grupo no Facebook, batizado de "Microcefalia não é o fim". Na comunidade, os pais compartilham avanços dos filhos, tiram dúvidas e relatam suas próprias histórias.

De acordo com a jovem, a educação e falta de informações são problema frequentes entre os pais com filho com microcefalia. Ela conta que muitos reclamam sobre a falta de escolas que acolham crianças com a condição. “Os colégios colocam dificuldade em tudo. A educação tem que ser mais preparada para essas crianças”.

Outra questão são as mães que procuram Thais para falar sobre a possibilidade de ter um segundo filho. “Como tive outra filha, as mães sempre me procuraram, com medo. A gente ama essa vida, mas têm medo”, fala.

O número de participantes do grupo da rede social, inclusive, dobrou no último ano. Antes, eram cerca de três mil membros e  agora são quase oito mil.

Uma vida normal

“Elas [crianças com microcefalia] têm algumas limitações, mas pergunto: quem não tem? Todos nós temos, não é tudo que consigo fazer. Então, não se desespere porque esse anjinho vai te dar muita felicidade e amor”. Foi o recado de Thais aos pais com filhos portadores da condição, na reportagem de 2016.

Agora, neste ano, os desejos ainda são os mesmo, mas as expectativas maiores. “Eu espero muita coisa para o futuro da Manu,  muitas vitórias. Ela vai fazer faculdade. Se Deus quiser, vou dar uma vida normal para ela”, diz.

Relembre

Durante a gravidez, Thais teve manchas vermelhas pelo corpo e muita dor. “Estava de quatro meses e contei para o meu obstetra, mas, como não se falava sobre o Zika vírus, ele falou que era apenas uma alergia”, conta.

Após quatro meses do nascimento da Emanuelle, ela percebeu que a filha apresentava um corpo bem ‘molinho’ e não conseguia sentar. Mesmo assim, não foi a fundo com essa ideia, mas aos sete meses, notou que havia, de fato, algo errado. “Fui ao pediatra e ele indicou um neuropediatra, que pediu diversos exames neurológicos. Com isso, descobrimos a microcefalia e a suspeita é que tenha sido causada pelo Zika (...) Meu chão caiu, não sabia o que fazer”.

Thais precisou deixar o emprego em um escritório de contabilidade para cuidar da filha e hoje faz alguns trabalhos como fotógrafa.

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Thais posa com a filha, ainda com 10 meses - Thais Veloso/Arquivo Pessoal

O que é a microcefalia?

Por definição, a microcefalia consiste na redução do tamanho do volume do encéfalo – por conta disso, o paciente com esse diagnóstico pode ver comprometido o seu desenvolvimento cognitivo e motor, além de poder apresentar outros distúrbios, como retardo mental, problemas de visão e audição, entre outros.